Adriana Nóbrega

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references for my work

TEXTS
    the time
    Acordei e todo o tempo era hoje

2022
    Portuguese man o’ war  
    Smashed Crab
    Medieval Sea Monster

---- Books
    Casas de água


2021 
    Balão pato
    The travels of Gulliver's duck    
    Inundação
    Pato Tinó
    Confissões ao espaço
    Rose farm
    Beginning of the end -teamwork
    Shape of Roses (Dead)
    1 a 100 -past 
    The circular garden
    Jack the monkey
    Drawn volumes

---- Books
    risomas imagiológicos
   
2020
    Gelo 
    BUFFALO RUNNING in the dark            
    ANO 0 103-365
    1-365 ANOS
    Trajeto da água: não é um bem consumível
    Branco sobre branco    
    Do céu ao líquido
   
2019
    Montanha portátil   
    Texturas monotípicas
    Cinzentos
  
---- Books
    Ilha portátil
    Histórico da ilha   
    Monotipado repetitivo
    Rendas Algoritmo

2018
    Tudo é uma janela
  
    Introspective laser

---- Books
    Agustina
Acordei e todo o tempo era hoje. Teria eu consciência do hoje, do ontem e do amanhã? Aquilo que fizera no passado apagou-se para sempre, acho eu… reconheço, recomeço ou repito? Inconscientemente, faço as mesmas ações que na outra vida fiz, pelo menos é o que vim a descobrir. Se tal for verdade, o meu ser não aprendeu nada com o que aconteceu. “Aprende com os erros e as vivências, tuas e dos outros”.
Aparentemente é mentira. Repito e reforço e não existe hoje. Fujo desses que não deviam acontecer.
A partir de agora, ao saber que existia algo mais não sei o que faça. A vida em que todo o tempo era apenas e exclusivamente, um presente, parecia-me muito melhor. Acordar, atuar na vida (fazer alguma ação, pequena ou grande) adormecer e …. E…? E nada, acho…




O Hoje comia o hoje de ontem e o hoje futuro. Aquele Hoje deixava-me livre das tristezas do meu passado. Tudo era possível. Não havia medos do futuro nem frustrações de um passado. Mas a morte expulsou-me do “apenas e constante Hoje”. Agora o passado é um presente constante. A morte trouxe as outras vidas.


Quero voltar ao meu Hoje, com ou sem consequências.


Automatismo de ações que levam a não ter noção do tempo a passar. Como se a vida fosse ilimitada e o hoje um grande loop constante. Acordo. Durmo. Acordo. Durmo. Acordo. Durmo. Morro. Acordo. Durmo. Acordo. Durmo.
Obviamente que estou a reduzir às ações iniciais e finais de cada hoje.

Construí um arquivo de possibilidades de “Hojes” e repito um a um no hoje seguinte. Será que se relacionam com os hojes passados? Aperceber-me-ei alguma vez que esta vida é um hoje constante? Legendo o hoje que atualmente me encontro. “Hoje + imaginar + existir”. Quantas vezes terei legendado o presente que estava? Talvez nenhuma, pois até este momento não tinha sabido o que é o antigo hoje. E do hoje que virá. Não ter consciência dos outros espaços temporais, sem saber que lá estive. Acabou o déjà vu. A sensação de reviver outra vida. Acabou as memórias.
Não haver memória… será que teria memória apenas do hoje presente e depois esta seria reiniciada? Parece impossível conseguir viver sem memórias. Nem consigo imaginar, nem acreditar que não me lembro de coisas que antes eram importantes. É como se em cada hoje morresse e no hoje seguinte renascesse.

Ainda é hoje. Este hoje não diz muito do futuro ainda passado. Esta repetição constante de um presente que passou a ser passado e que será futuro começa me irritar. No hoje de amanhã espero não ter esta consciência deste presente. Teres noção que cada hoje existe e é apenas um constante loop parece limitar a possibilidade de haver mais que isto. Conseguirei sair deste Hoje?

Encontro-me num espaço temporal vazio. Consigo vislumbrar os múltiplos espaços temporais, tenho consciência de que estes existem. Como? Que hoje é este? Ontem atrás ou à frente tal como o futuro. Que loop constante sem início nem fim, que confusão.
Será que acordei na única linha temporal que existe nas mentes dos outros, seres, formas ou corpos? No único momento ou estado possível de manter focada no hoje sem estar conectada nos outros Hojes. Em simultâneo com consciência total e inconsciência total dos outros espaços temporais.



Antes de conseguir perceber o que este significa, se é perigoso ou não, tenho receio de me perder nestes espaço temporal.



Quero voltar ao meu Hoje, com ou sem consequências. Receio perder esta consciência do múltiplo hoje.



Estou no espaço morto entre as estrelas, onde todo o dia de hoje é o primeiro dia. Consigo ver o espaço do terreno dos meus bisavós, desde São Gonçalo até ao Funchal.
Que espaço enorme… assemelha-se ao espaço temporal que existe em cada um de nós, que se vai esvaziando ao longo de cada hoje que passa. Mas este tem uma escala e forma muito diferente, pois depende muito de cada um de nós.
Será que consigo ver também a forma temporal dos outros corpos? Parece que não… vou ter de imaginar apenas.
Tenho a certeza de que seriam arredondadas, talvez algumas até pareçam apenas um círculo, com escalas que variam. Outras podem parecem algum rizoma… ou quase uma pincelada com várias espessuras dentro da mesma.
Vou registar estas possíveis formas temporais dos corpos que habitam o hoje.

O próprio tempo tem de ter uma forma, certo? Ou ele nunca se esvazia e é uma junção de todas as formas ou até só algumas especificas? Quais seriam os corpos que pertenceriam ao tempo?
Vou desenhar este hoje de hoje. E por sua vez todos os hojes seguintes e anteriores uma vez que são todos iguais, só variam entre


São uma forma reduzida de experiência, pois só vemos o que vivenciamos através das nossas pequenas realidades presas a um constante hoje. Seja das nossas vivências ou daqueles que nos são perto. Por mais que não veja ninguém aqui. Nem me lembro de ver alguém. Onde estarão os outros? Devem estar presos noutro hoje… assim o espero.
Os outros seres existiram? Têm de ter existido, pois foi através de uma memória de um deles que me apercebi do antigo hoje. E assim conclui que a minha vida no hoje é uma liquidação desse tempo antigo.



Quero voltar ao meu Hoje sem consciência. Mas deixa-me as formas. As formas conseguem congelar os vários hojes e obter aquele conformismo consciente da morte. Que apazigua e inquieta o Hoje.



written in June 2021